A influência dos elementos paratextuais da Coletânea Lendas Gaúchas na produção e na circulação da obra


 

 

 

 

 

 

 

 

 


Susana Irion Dalcol*
Doutoranda PUCRS/CAPES


No âmbito dos estudos literários, costuma-se enfatizar o valor do livro não enquanto objeto material, mas sempre do ponto de vista interno do texto. No entanto, Lajolo e Zilberman (1996: 60) enfatizam que “a literatura tem uma faceta concreta, com componentes históricos passíveis de recuperação e análise”. Essa faceta concreta, que se configura na materialidade do livro, é objeto de estudo da Sociologia da leitura, campo no qual se insere o presente trabalho, cujo tema é o estudo dos diversos elementos paratextuais, portanto extrínsecos ao texto, que compõem a coletânea de histórias populares do Rio Grande do Sul — Lendas gaúchas, editada por Zero Hora Editora Jornalística no ano 2000. Pretende-se, através da análise, verificar como tais elementos podem influenciar na recepção da obra e proporcionar a delimitação do contexto social de leitura da mesma, levando a um determinado perfil do público alvo. Considerarmos importante também examinar como uma obra que reúne vários textos na forma de uma antologia pode contribuir para a conservação do patrimônio cultural de uma dada sociedade. Para tanto, buscamos elucidar como elementos que são extrínsecos aos textos, podem estimular a leitura e despertar o interesse pelos textos em um determinado público.
Zilberman (2001) observa que, dos componentes que formam o sistema literário – escritor, obra e leitor –, o que menos é levado em conta nos estudos literários é o leitor. Para a sociologia da leitura, no entanto, o leitor é fator determinante do sistema literário, junto com o objeto a que se dirige a atenção dele, isto é, o livro. Nesse contexto, a autora afirma que o livro é visto como uma mercadoria que dispõe de mecanismos próprios de distribuição e circulação. É ele que “confere materialidade à literatura e seu consumo participa da lei da oferta e da procura que movimenta a sociedade capitalista, gerando lucros, acionando indústrias e abarcando trabalhadores assalariados” (2001: 80). Se não houvesse a materialidade da literatura, o suporte por meio do qual ela se manifesta, no entender de Zilberman, a literatura “perder-se-ia no tempo, pois seus outros elementos — as imagens que emanam da fantasia de um sujeito; as narrações em que se transformam as falas de pessoas e grupos — mostram-se por demais transitórios e efêmeros” (2000: 113). A sociologia da leitura, por isso, preocupa-se em tratar de elementos externos ao texto, que interferem na produção e na circulação do livro na sociedade. 
No entender de Cândido (1976), não convém separar a repercussão da obra de sua feitura. Por isso, o autor procura definir o que hoje se configura como crítica integral, ou seja, aquela que funde texto e contexto, fatores internos e externos, que conduzem a uma interpretação coerente. Para o crítico, “o externo importa não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno” (1976:04). 
Na perspectiva de uma análise sociológica, Cândido afirma ainda que a atuação dos fatores sociais varia conforme a configuração da obra literária. Segundo ele, existem dois tipos de arte, a de agregação e a de segregação. A primeira é inspirada na experiência coletiva e visa meios mais acessíveis. Ela vincula-se a um sistema simbólico em vigor e utiliza-se, como forma de expressão de uma sociedade, do que já é estabelecido. Na arte de agregação, há o predomínio da integração, pois tende a acentuar no indivíduo ou no grupo social a participação nos valores comuns da sociedade. A arte de segregação, por sua vez, preocupa-se em renovar o sistema simbólico, rompendo com o estabelecido. Há, nesse caso, o predomínio da diferenciação. Por fim, o autor enfatiza que a obra depende dos recursos técnicos para incorporar os valores propostos, já que ela delimita e organiza o público. Os valores e a ideologia contribuem para o conteúdo, enquanto as modalidades de comunicação influem na forma. 
A partir, então, das colocações de Cândido, pode-se pensar na antologia como forma literária que é portadora de uma certa ideologia e de valores que atuam sobre o público leitor. Vale investigar, no entanto, qual o tipo de arte que esta forma privilegia e qual o resultado disso na constituição do público receptor. 
A antologia como forma editorial
Fraisse (1997) procura investigar como a antologia, através dos tempos, continua a ser foco de observação do fato literário e como sua história é inseparável



A capa do volume um reproduz cena de Negrinho do pastoreio,
na aquarela de Rodrigo Rosa. Cada capa da coletânea traz a imagem de um elemento da natureza: aqui temos o verde.
de uma reflexão sobre o conjunto dos textos, dos gêneros, dos seus modos de agenciamento e transmissão. Através do conjunto de fragmentos selecionados, a antologia coloca em evidência a relação da forma material adotada e da natureza dos extratos recolhidos. Os atos de seleção, extração, colagem e agrupamento que antecedem sua elaboração definem uma forma e um contexto que é sempre renovado, pois implica na criação de um novo sentido para o conjunto dos textos escolhidos para a coletânea. Também os materiais que acompanham os textos das antologias — prefácios, posfácios, notícias de apresentação, ilustração, dimensões, aspecto exterior — são índices de suas intenções iniciais e do público que visa. 
O autor ainda ressalta que se deve levar em conta o conjunto do dispositivo editorial, ou seja, tanto os fragmentos propostos, como o paratexto e o modo de reconhecimento dos textos — cronologia, gênero, temas, condições editorias propriamente ditas, estatuto dos autores, orientação e prestígio dos editores, natureza e objetivos das coleções. Através desses elementos pode-se apreender como a antologia dá conta da literatura, na medida em que remete à natureza do patrimônio cultural, redefinindo-o, reavaliando-o e reabilitando-o. Ela tem a intenção de preservar o patrimônio, tomando-o em parte e tornando-o acessível. 
Para Fraisse (1997), a antologia supõe um olhar histórico sobre o literário, que modifica as condições de transmissão e a relação com os textos, no quadro escolar e fora dos seus limites. Ela tem a capacidade de propor uma reflexão sobre os efeitos estéticos dessa organização de textos literários. Não é uma forma vazia, pois suscita sempre um conteúdo. Como objeto fundador de uma identidade, é a afirmação da realidade coletiva de um determinado grupo cultural. Assim, exerce um papel literário e também ideológico, pois refletindo e fixando cânones, acaba por definir e interpretar a literatura sob determinada perspectiva. Não é ela, porém, pura conservação da tradição, resta-lhe uma tarefa de contemplação e memória que supõe que, para que alguns objetos se conservem, outros devem ser esquecidos ou apagados. 
A forma material adotada e a natureza dos textos em Lendas gaúchas
Na antologia, a configuração da forma adotada e a essência dos extratos recolhidos são essenciais na sua concepção, na medida em que servem para engendrar o perfil da obra, auxiliando, assim, na demarcação do público receptor. No caso de Lendas gaúchas, a forma material se caracteriza por ser uma compilação de histórias populares do Rio Grande do Sul. A obra, dividida em cinco volumes, foi publicada pelo núcleo de colecionáveis de Zero Hora. Atualmente ZH Publicações, essa divisão é vinculada à diretoria de Circulação de Zero Hora, responsável pela concepção e produção de projetos editoriais que privilegiam conteúdos que tratam, preferencialmente, do “jeito gaúcho de ser”1,

1. Expressão cunhada por Pedro Haase Filho, editor de ZH Publicações.
2. Entrevista concedida, via e-mail, em março de 2002.
incluindo tradições, literatura, esporte, cotidiano e, de modo geral, a cultura gaúcha. 
De acordo com o editor Pedro Haase Filho2, a idéia da coletânea surgiu da necessidade detectada por ZH Publicações de oferecer aos leitores do jornal, assinantes e de venda avulsa, um produto com temática regional. Uma pesquisa de mercado foi realizada e demonstrou que publicações de histórias do imaginário popular gaúcho eram raras e, geralmente, acadêmicas. A partir daí, a coletânea foi estruturada, tendo como critério primordial de seleção dos textos o grau de identidade da história com o imaginário gaúcho, com a tradição. A pesquisa bibliográfica empreendida nesse momento apontou mais de cem histórias que se enquadravam no critério inicial, o que revelou a necessidade de partir para outra forma de escolha dos textos. O critério utilizado foi, então, a regionalização, privilegiando histórias que apresentassem origem ou tivessem como cenário diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Da idéia inicial de criar uma obra com temática regional, nasceu a obra na forma de uma coletânea, dividida em cinco volumes, para ser comercializada juntamente com o jornal Zero Hora. A forma material daí decorrente indica, por um lado, o público previamente visado pelos editores, que é marcadamente o mesmo já habituado com a compra e a leitura do jornal e, por outro, a intenção de trazer a esses leitores uma obra cujo conteúdo já está apontado no título da coletânea, tratando-se de narrativas da tradição popular sul-rio-grandense. 
No que diz respeito à “natureza dos extratos recolhidos” (Fraisse 1997), a escolha de lendas

O segundo volume traz O boi das aspas de ouro como ilustração e o elemento escolhido foi a terra.
é decorrência da temática regional imaginada. A lenda faz parte do repertório folclórico do Sul, das fontes populares e da tradição estabelecida. Traz, portanto, um conteúdo ideológico que sugere a conservação de um patrimônio, que na coletânea é reiterado pela forma material adotada — a antologia. No entender de Fraisse (1997), a antologia serve para revigorar determinados textos, tirando-os do esquecimento. Lendas gaúchas apresenta esta particularidade, na medida em que retoma uma tradição, dando-lhe nova vida e novos significados. 
Cunha (1985), em estudo sobre o folclore no âmbito da literatura infantil, destaca que o contato da criança com o material folclórico, no qual se insere a lenda, é uma das formas mais eficazes de combate à massificação e à colonização. É o folclore que leva ao conhecimento da cultura regional, que por sua vez, permite sua aceitação e sua valorização, bem como a integração do indivíduo no seu meio. Segundo a autora, o folclore é a melhor forma de fazer uma criança penetrar na alma do povo, de criar uma consciência nacional e amor às coisas da terra. Em nosso entender, as considerações da autora podem ser estendidas a um público mais amplo, como o visado pela coleção Lendas gaúchas e vêm ao encontro do que afirmamos acima: a retomada de textos do folclore gaúcho serve para que nosso patrimônio não seja esquecido. A coletânea de histórias populares gaúchas, que “registra algumas das principais lendas e histórias concebidas a partir do imaginário dos povos que formaram historicamente o Rio Grande do Sul”, conforme nota de abertura do volume um, traz implícita a intenção de revisar uma certa tradição, reabilitando-a. 
No volume um da coletânea, encontramos uma citação do Novo dicionário da Língua Portuguesa que reproduz o significado de “lenda”: tradição popular, narração escrita ou oral, de caráter maravilhoso, na qual os fatos históricos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética. A definição do vocábulo, que ressalta a “imaginação poética” é um indicativo relevante para se compreender a natureza dos textos que compõem a obra. As lendas, nesse contexto, não vêm em sua forma primitiva, mas sim recriadas, estilizadas por autores respeitados no panorama da literatura gaúcha. No total dos cinco volumes, encontramos sete autores: Simões Lopes Neto que aparece nos cinco volumes, João Cezimbra Jacques e Antonio Augusto Fagundes, em dois volumes, Walmir Ayala, Roque Callage, Walter Spalding e Barbosa Lessa, em um volume cada. Barbosa Lessa, além da autoria de uma história do volume dois, é responsável pela apresentação que abre a publicação no volume um. A presença de autores já consagrados é significativa, pois assinala a preocupação da equipe editorial em assegurar a qualidade e o sucesso da coletânea, já que a antologia, enquanto forma literária, é fruto do cânone e traz ao público textos e autores clássicos da história da literatura. 
O fato de a coletânea implicar na retomada da tradição gaúcha nos remete ao que Cândido (1976) qualifica como arte de agregação. Trata-se, por isso, de uma obra cuja orientação geral, do ponto de vista sociológico, está voltada à integração, aos fatores que acentuam no grupo social a participação nos valores comuns da sociedade, através da incorporação de um sistema simbólico que está em vigor. 
Os elementos paratextuais da coletânea Lendas gaúchas
Assim como a forma material – a antologia –, e a natureza dos textos – a lenda – são importantes para demarcar uma obra, também os elementos paratextuais que acompanham os textos — prefácios, posfácios, notícias de apresentação, ilustração, dimensões — são marcas das intenções iniciais e do público alvo. É, portanto, na materialidade do livro que encontramos os indícios de qual é o objetivo a ser atingido pela publicação e de quem é o público desejado pelo editor. Por isso, a qualidade da encadernação, o formato do livro, a capa, os recursos gráficos, as referências e a ilustração são aspectos que permitem ao editor, no momento da produção do objeto de leitura, adequá-lo a um determinado tipo de leitor. 
O cuidado e a sofisticação da publicação, por exemplo, revelam o nível de exigência do público alvo. Quanto mais sofisticada for a obra, mais habituado está o público visado com o mundo letrado e maior é seu poder aquisitivo. Se a obra não dispõe de recursos estéticos que indiquem uma edição de luxo, pode-se deduzir que esta visa um público mais popular, de menor poder aquisitivo, sendo apropriada para “larga circulação”. Na coletânea publicada por Zero Hora, percebe-se um meio termo entre os padrões acima descritos: não se trata de uma edição extremamente sofisticada, nem se caracteriza como uma obra de “larga circulação”, que não demonstra cuidados com a apresentação estética. 


A Mboitatá é a imagem da capa do terceiro volume da coletânea, junto à madeira como elemento representativo da natureza gaúcha.
Dentre os recursos visuais que servem para atrair o leitor, decisivos para a recepção positiva da obra, a ilustração exerce fator relevante, devendo ser sugestiva e repleta de conteúdo interpretativo. A ilustração, nesses moldes, dá oportunidade ao leitor para recriar o mundo da escrita. Em Lendas gaúchas, os cinco volumes trazem ilustrações coloridas em aquarela de Rodrigo Rosa, na capa e no interior dos textos. A ilustração de cada capa indica o conteúdo da primeira história do volume. A capa do volume um reproduz uma cena de “Negrinho do pastoreio”; o segundo volume traz como ilustração “O boi das aspas de ouro”; o terceiro, “A Mboitatá”. No quarto volume, a ilustração remete à história da “Mãe Mulita” e no último volume, encontramos o desenho de “A Salamanca do Jarau”. Além das referências diretas às primeiras histórias dos volumes, cada capa traz a imagem de um elemento da natureza: o verde, a terra, a madeira, a pedra e a flor. No conjunto dos cinco livros, os elementos da natureza apontam para um sentimento muito próximo da tradição gaúcha — o telurismo3 —,

3. Telurismo é entendido aqui como o sentimento de apego às coisas da natureza que é característico do gaúcho. É a influência que a natureza exerce nos costumes, no caráter e na cultura de um povo.
e sugerem, dessa forma, a própria temática da obra. A ilustração, mesclada com o conteúdo, portanto, dá unidade à coletânea, pois é parte integrante da leitura dos textos.
No domínio ainda da materialidade da obra, consideramos importante destacar a dimensão da obra. Nesse sentido, a análise do número de páginas é significativa. Quanto maior o volume, mais capacitado para a leitura deverá ser o público leitor. Se uma obra contém poucas páginas e muita ilustração intercalada no texto escrito, é indicativo de um outro tipo de público, menos habituado ao contato com o universo letrado. Em Lendas gaúchas, a estratégia de dividir a obra em cinco volumes, com uma média de 47 páginas cada, todas contendo uma rica ilustração, aponta para duas questões fundamentais: a primeira diz respeito à opção de diluir os custos, tornando a obra mais acessível para a compra; a segunda aponta para o objetivo de facilitar a leitura para um público menos habituado a ter contato com objetos de leitura densos e com muitas informações. Sobre a forma da antologia e sua propagação na atualidade por facilitar tanto a aquisição quanto à leitura, Freyre (1972) comenta que: 

As antologias são, atualmente, uma imposição maior do que outrora daquelas circunstâncias da vida moderna que tornam difíceis a pessoas do tipo médio possuírem, em casa ou em apartamento de reduzido espaço, biblioteca numerosa. Poucos serão os que podem competir com as bibliotecas públicas, universitárias, institucionais, na posse de coleções de obras completas de autores, mesmo admirados ou queridos. A seleção se impõe: precisa esse leitor de tipo médio reduzir a posse de obras completas de um admirado, às mais queridas.4


4. FREYRE, Gilberto.
A Condição humana e outros temas (Prefácio). Rio de Janeiro: Grifo, 1972.
Pelos motivos expostos por Freyre, pode-se perceber, de uma maneira geral, a importância dessa forma editorial hoje. Envolta em muitos cuidados na produção, busca atingir camadas cada vez mais amplas de leitores, que incluem desde aqueles que pertencem ao mundo letrado, mas que não têm condições econômicas para investir em livros sofisticados e na obra completa de seus autores preferidos, até aqueles menos acostumados com o universo literário, mas que são leitores em potencial no futuro, como as crianças e os adolescentes. 
Em Lendas gaúchas, a análise de elementos como a capa, a ilustração e a dimensão da obra já permite delinear o perfil do público visado pelos editores da coletânea: um público de médio poder aquisitivo, mas que exige qualidade e leva em consideração na hora da compra a apresentação estética, aliada a um conteúdo acessível, que seja próximo do seu universo de conhecimento. Nesse sentido, a opção de ZH Publicações de criar uma coletânea de histórias populares do Rio Grande do Sul é significativa. O editor Pedro Haase Filho explica que, a propósito do aspecto mercadológico, elegeu-se como público alvo homens e mulheres entre 30 e 50 anos, identificados com a cultura gaúcha e com maior poder de compra. Editorialmente, no entanto, a obra foi estruturada para um público mais amplo, abrangendo desde jovens de 12 anos até os mais idosos, “saudosos do tempo em que ouviam as histórias contadas por seus avós e pais”. A eleição desse público na esfera editorial justifica a preocupação com a apresentação externa, com a presença de uma ilustração primorosa. Os dados vêm ao encontro do que afirmamos acima sobre o público que, sendo menos habituado ao mundo letrado como as crianças, busca uma leitura mais leve e prazerosa. A leitura proporcionada aos mais idosos deve, da mesma forma, oferecer facilidades para o entretenimento. Uma obra

No quarto volume, a aquarela de Rodrigo Rosa remete à história
da Mãe Mulita e o elemento eleito foi a pedra.
que prima pela facilidade de aquisição, pela apresentação impecável e pela ilustração atrativa, acaba por conquistar o público leitor, mesmo antes de se analisar o conteúdo dos textos nela inseridos. 
Outros aspectos importantes para a análise, por serem determinantes da receptividade do material, dizem respeito à forma de divulgação e posterior comercialização da obra. Lendas gaúchas, cuja tiragem total de exemplares foi de 25 mil coletâneas completas, teve sua divulgação, segundo o editor, realizada em três níveis distintos: editorial, publicitária e comercial. Durante o mês que antecedeu o lançamento da obra, foi veiculada uma série de matérias em diferentes editorias de Zero Hora e na RBS TV. Além disso, a equipe de produção participou de programas na Rádio Gaúcha e na TVCom, marcando, assim, a divulgação editorial. No mesmo período foi realizada a divulgação publicitária por meio da exibição de anúncios na Zero Hora, de um filme promocional veiculado na RBS TV e de cartazes sobre a coletânea, fixados em bancas de revista. Na área comercial, a divulgação foi efetuada através de mala direta enviada aos assinantes de Zero Hora junto com um doc para pagamento bancário que proporcionava o recebimento da obra completa em casa5.

5. Essa forma de comercialização está relacionada com o público visado na área mercadológica, ou seja, homens e mulheres entre 30 e 50 anos, em plena atividade profissional, o que permite o investimento na coletânea para os filhos, os pais ou mesmo os avós, que constituem o público alvo sob o aspecto editorial.
A comercialização da coletânea envolveu a venda dos volumes em bancas de revista, onde cada volume era distribuído com o exemplar dominical de Zero Hora, ao longo de cinco domingos. O mesmo procedimento de venda avulsa foi realizado por jornaleiros nas ruas e sinaleiras. Dessa forma, podemos constatar o trabalho prévio empreendido para o sucesso da publicação.
Para traçar o perfil de uma obra, além dos elementos acima examinados, no caso da antologia, Fraisse (1997) considera fundamental a análise dos materiais que acompanham os textos, uma vez que atuam como mediadores da leitura, e representam indicadores das intenções iniciais dos editores quanto ao público visado. Na coletânea Lendas gaúchas, encontramos alguns elementos paratextuais — apresentação, informações sobre os autores, notas da edição, glossário e bibliografia, que são bastante significativos na constituição da obra. Todos se caracterizam por serem facilitadores da leitura. Através deles, o leitor pode esclarecer suas dúvidas, contextualizar as histórias e procurar outras fontes para complementar as leituras realizadas. 
O primeiro elemento paratextual que vai chamar a atenção do leitor é a “Apresentação”, de Barbosa Lessa, cujo renome no panorama cultural gaúcho já é uma apresentação e uma referência valiosa. O autor, desde o início do texto, procura dividir com o leitor sua experiência pessoal no mundo mágico das lendas, contando-lhe como descobriu, na infância, a história do Negrinho do Pastoreio e como, a partir daí, ela tornou-se presente em sua vida. Na apresentação, Barbosa Lessa também vai destacar as diversas qualidades da obra, registrando que “nesta coletânea Lendas gaúchas nos são mostradas as coisas tão bonitas que a voz do povo guardou através dos séculos e que hoje simbolizam, maravilhosamente, a devoção do Rio Grande do Sul por suas tradições”. Além disso, menciona que através da coletânea o leitor poderá “fazer uma viagem fabulosa”, “extrairá lições de seu contato com as plantas tais como o umbu e a erva-mate, conversará com bichos tais como o João-de-barro e o quero-quero”. O autor ainda afirma que na coletânea “está a se reconstruir um emocionante painel sobre o mundo mágico dos gaúchos”. Dessa forma, ele abre as portas e convida o leitor a ingressar nesse mundo novo. À medida que aguça a curiosidade do leitor, Barbosa Lessa incentiva-o a investir na leitura da coletânea. 

Na página da apresentação, encontramos, ao lado do texto principal, uma nota explicativa, na qual é feita a descrição da coletânea, juntamente com a reprodução das capas dos cinco volumes, mostrando, então, a configuração da obra completa. Trata-se de uma estratégia para que o leitor visualize o conjunto e, no contato com o primeiro volume, decida pela aquisição dos subseqüentes. 
Também com o objetivo de servir como incentivo e como mediador de leitura, o item intitulado “Sobre os autores” oferece ao leitor uma pequena biografia de cada um dos autores cujos textos constam no volume, com a indicação de suas respectivas produções literárias. Já em “Notas da edição” encontramos explicações sobre palavras e expressões que designam aspectos históricos, geográficos, culturais e outros, e que aparecem destacadas nos textos para que o leitor possa consultar, à medida que vai realizando a leitura das lendas. Além das explicações, cada volume traz em suas “Notas da edição” um mapa do Rio Grande do Sul, com a localização dos municípios citados no volume, que visam facilitar a contextualização das histórias. O “Glossário”, por sua vez, traz palavras e expressões próprias do vocabulário regional e também aquelas que são de pouco uso e, por isso, desconhecidas do leitor. Por fim, a “Bibliografia” indica dados sobre os textos transcritos na coletânea e já publicados anteriormente, além de dar referências a respeito das fontes de pesquisa sobre os textos da coletânea, as notas da edição e o glossário. 
Ao analisarmos todos esses elementos procuramos evidenciar, na composição da coletânea Lendas gaúchas, como o paratexto pode, por um lado, determinar o perfil de um público leitor, delimitando o contexto social da recepção da obra e, por outro, interferir na leitura da mesma, estimulando a leitura e despertando o interesse pelos textos constitutivos da antologia que, por sua vez, são


No último volume, encontramos a flor sobre desenho de Rodrigo Rosa para A Salamanca do Jarau.
depositários de uma determinada ideologia que vai ser absorvida pelo leitor. A materialidade da obra não é, portanto, simples adorno. Exerce, ao contrário, importante influência na produção e na posterior circulação da mesma. Por isso, os editores imprimem tanto apuro na formatação, nos diversos elementos paratextuais e na divulgação da obra. São esses aspectos que, somados ao conteúdo veiculado na obra, acabam por definir o sucesso editorial. Como enfatiza Cândido (1976), os fatores externos contribuem enormemente para a constituição da obra. A forma e os recursos técnicos são também responsáveis pela incorporação de valores e da ideologia implícitos no texto e auxiliam na delimitação do público, quando há uma identificação entre eles. 
No decorrer do trabalho, procurou-se também verificar como os atos de seleção e de agrupamento dos textos na forma de uma antologia sugerem a definição de um novo contexto de leitura, contribuindo para a conservação do patrimônio cultural de uma dada sociedade. Como mediadora de leitura, a antologia proporcionou a afirmação da realidade coletiva de um determinado grupo social, no caso, o gaúcho. Dessa maneira, a coletânea dá conta da literatura, reiterando o cânone, veiculando valores próprios da tradição do Rio Grande do Sul. 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1976. :: Lendas gaúchas – coletânea de histórias populares do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ZH Editora Jornalística, 2000. V 1, 2, 3, 4, 5. :: CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura infantil: teoria e prática. 3. ed. São Paulo: Ática, 1985. :: FRAISSE, Emmanuel. “L’anthologie littéraire, éléments de definition” In.: Les anthologie en France. Paris: PUF, 1997. p.71-79. Tradução de Vera Aguiar. :: FREYRE, Gilberto. A Condição humana e outros temas. Rio de Janeiro: Grifo, 1972. Prefácio. :: LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996. :: ZILBERMAN, Regina. Fim do livro, fim dos leitores? São Paulo: Ed. SENAC, 2001. 

 

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